O comissário ordinário

O comissário ordinário é aquela pessoa que está na aviação, mas ninguém sabe bem o por quê. Está ali, sentado no jump, com uma cara péssima e uma nuvem negra em cima da cabeça, sempre.

É aquele comissário que quando fez o curso na escola de aviação ouviu - e acreditou! coitado - que a vida de comissário era cheia do glamour. E aí descobriu que não existe glamour que sobreviva à luvas de plástico segurando um saco de lixo no meio de um corredor quando mais de 100 pessoas querem jogar lixo fora.

E fazer o quê, colega? O trabalho é árduo e engrandece o espírito, mas glamour mesmo, é coisa de top model, e você, apesar de andar na passarela o dia todo, não é nem top, quanto menos model.

Estou cansada de encontrar esse tipo de gente no meu dia-a-dia de trabalho. Ou na minha vida mesmo. Lembro que no meu processo seletivo eles nos pediam para dar um motivo de por que querer ser comissário e não era para falar o clichê "porque eu gosto de trabalhar com pessoas". Porque é óbvio. É obvio que se você vai trabalhar num lugar que passam mais de 400 pessoas por dia para você servir, você vai gostar de trabalhar com pessoas. É óbvio que ninguém ia se auto torturar a esse nível. É óbvio, mas aparentemente, não.

Eu fico pasma quando o comissário ordinário bate no peito para dizer que não é garçom que voa, mas revira os olhos quando alguém que nunca voou na vida pergunta como se coloca o cinto de segurança. Fico brava quando o comissário ordinário não pede para os clientes seguirem as normas de segurança porque "não aguenta mais falar a mesma coisa". E fico chateada quando esse mesmo comissário não se coloca no lugar de seus passageiros, pessoas que tem medo, aflições, que podem nunca ter voado, que podem ter tido um dia ruim, quando esse comissário não tem empatia pelo outros, ou amor pelo que faz.

Porque tem que amar. Amar mesmo. Quando me perguntam uma característica indispensável para se trabalhar na aviação, é isso que eu respondo - amor. Porque é difícil pedir 400 vezes a mesma coisa, porque a cada pouso e decolagem é como apertar um botão de reset e começar tudo, igualzinho, de novo. Porque não dá tempo de comer, não dá tempo de dormir, não dá tempo de pensar. Porque você é responsável pela vida de pessoas que vão ser mal-educadas com você. Porque é mais fácil mandar a merda do que sorrir para uma pessoa que não quer cooperar, porque você é responsável pelo conforto e segurança de todas as pessoas que cruzam a porta daquele avião, não importa quantas sejam. Porque ser comissário não é uma profissão, é um estilo de vida.

Os passageiros são difíceis, sim. As pessoas em geral são. Mas o comissário ordinário faz tudo ficar mil vezes pior, porque na minha profissão, nós temos que confiar uns nos outros minutos depois que acabamos de nos conhecer. Numa emergência, eu tenho que confiar que o comissário do meu lado vai saber o que fazer, mas eu sei que o comissário ordinário não sabe. E é triste e amedrontador, porque a aviação está cheia deles.

Pessoas vazias que querem o bom sem nunca enfrentar o ruim. Pessoas comuns, que não se esforçam e acham que todos devem amá-los por serem os coitados que são. Pessoas que deveriam estar num escritório, atrás de telas de computadores, que deveriam procurar áreas que não fossem ligadas diretamente ao público, que não precisassem lidar com pessoas, porque não são capazes de entender os mais singelos sentimentos humanos. Pessoas que são gentes, mas não sabem ser humanos.

Que Deus me faça nunca ficar assim. Que Deus me proteja, enquanto eu tiver de lidar com vidas, de ser ordinária - em todos os sentidos da palavra.

Ps.: Apenas para esclarecer - quando falo "comissário ordinário" no masculino, me refiro a homens e mulheres no geral, assim como falamos "homem" para nos referir à sociedade em geral, certo? Certo.

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