Das fraquezas, sutilezas e desprendimentos

O despertador tocou as 3h da manhã. A alma suspirou cansada, em qualquer canto, jogada - onde é mesmo que eu estou?

E começa a rotina sem rotina, põe o gel, 15 minutos, maquiagem, despertador, check-out, van, voo.

E repete, repete, repete. Casa cheia? Quanto tempo? Se balançar não vai dar, não. E entre pernas, tem chão? 3 horas. Saco! Antes fizesse 5 voos sem parar.

O lenço aperta, a meia-calça desfia, o sorriso afrouxa - que é isso? Não entorta, não. O grampo do coque puxado dói, a perna inchada, a pele seca. Bom dia, aceita fone? Fone? Fone? Fone?

Embarque, desembarque, van, hotel.

Duas camas - uma minha, outra da mala, companhia certa, sempre. Sem a mala, já não há sustentação.

Apresentação 5h30 - finalmente, horário de gente, tem 3 dias que meu boa noite é bom dia!

Alô. Final de semana? Seu aniversário? Rola não, tem voo. A gente marca outro dia.

E esquece. Sorria, sorria, sorria - eu amo meu trabalho, eu amo meu trabalho, eu amo meu trabalho.

Comissaria já veio? Embarque liberado. Emergência ok, pode mandar por trás. Cliente mal educado, você viu? Cliente gente boa, pessoal tá bem tranquilo!

É só girar e puxar. Péin - uma coca. Péin - uma água. Péin - quanto tempo para chegar? Péin - cristo pai amado, senhor. Checou? Tripulação, pouso autorizado.

Ótimo voo, por isso que só voo aqui. Vocês são muito simpáticos.

Suspiro como se o ar me desse energias cósmicas. Não pára, já tem gente embarcando.

Cabeça pesada, dor nas costas - tem mais 3 pernas, desanima, não. Tripulação parceira - vamos jantar?

Folga! Quer dizer que Deus existe mesmo, então. Não me acorda, não me liga, oi casa, saudades!

Não é mal-humor, não, tô é estocando simpatia! A casquete pendurada já te olha esperançada, não demora muito, a gente já sai do chão!

Televisão, namorado, amigos, família. Banco, aluguel, fogão, que livro eu levo? Deus abençoe as folgas de final de semana. Mala - cade a escala? Hum... em Curitiba faz frio no verão.

...

3h30 -despertador toca. "Acorda, passarinha" tá na hora de passarear. De novo. E de novo, e de novo, e de novo.

Graças a Deus.

*quem não é da aviação, talvez tenha dificuldades em entender. Mas isso é um pouco (ou muito!) do meu dia-a-dia. Está tudo bem corrido, mas para que reclamar? Acabou ficando até rimado, mas vida de tripulante é assim mesmo: um pouco poesia. Espero que gostem!

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